BITI

vu1

Um dia meus pais se encontraram. No início se encontravam em protoboards onde passavam algum tempo juntos. Trocavam olhares. Se observavam através de outros componentes. Mas um jumper em dado momento os uniu. Se apaixonaram. Papai era um BC558! Minha mãe também. Tinham a beleza de um NPN. A paixão entre eles só aumentava e, então, quando menos esperavam estavam sob o altar de uma PCB. Como padrinhos e testemunhas desse amor estavam lá, os casais de amigos de longa data: o capacitor e a capacitância e o resistor e sua companheira resistência. Cerimônia linda! Festa ainda mais maravilhosa! E, então, eu nasci. Um belo FLIP FLOP de 4ms. Como assim! Eu explico: neste nosso mundo as coisas funcionam a velocidade da luz. O campo elétrico que nos move quando se aproxima da velocidade da luz faz (spoiler) a velocidade do tempo diminuir. E, nesse reino quântico, às vezes, não existe presente, passado ou futuro. Eu passo a ser uma entidade analógica. E agora eu era o centro das atenções da minha família. Alternava entre 0 e 1 incessantemente, ocupando todo o tempo de todos à volta!

O tempo foi passando e eu fiz muitos amigos. Passávamos muito tempo juntos, nos divertindo, coisa de jovem. Juntos até montamos um bar com muita música e animação. Chamamos de VU BAR. O nome pegou!

Bons tempos aqueles! Muito agito. Frequências infinitas. Oscilações. Mas…

Uma hora eu tinha que tomar jeito… e, então, fui para a faculdade… estudar engenharia!

Chegando lá, no primeiro semestre me sentia perdido. Um bit num monte de uns e zeros. Porque alguns não “piscavam” mais. Já tinham perdido essa vibração! O mundo os formatou! Um choque de realidade. Vieram, então, as aulas intermináveis, as avaliações e os trabalhos em grupo. E logo eu estava em um grupo! Era pequeno: eu e mais sete colegas. No curso, nos chamavam de “os BYTE”. Gostei. No nosso grupo não tinha “tempo ruim”. Sempre tínhamos uma saída. No máximo, 256. O que não era pouco. Tédio não era conosco.

Os semestres foram passando, e os colegas foram indo e vindo e, no fim, ainda éramos 8. Outros 8. Mais ainda tínhamos possibilidades. Não as 256! Alguns colegas eram inflexíveis quanto ao seu futuro. O que limitava um pouco o grupo. Mas como alguém disse uma vez: toda unanimidade é burra.

Logo chegou nossa formatura! Nosso momento tão esperado! Eram tantos zeros e uns comemorando que o palco pipocava de felicidade. Eu subi lá para receber meu diploma e, então, olhei para a plateia. Busquei lá aqueles a quem eu devia tudo que sou. Pude ver naquele momento nos olhos de papai e mamãe a emoção da minha conquista. Desci do palco e, ao encontrá-los, me juntei a eles novamente e lhes disse que toda a base que eles me deram foram o gatilho para o meu sucesso. Sou eternamente grato a esses dois anjos que o senhor dos semicondutores pôs aqui na placa.

Agora eu era um engenheiro e iria para uma empresa. Comecei enviando vários currículos para empresas de CLPs, Inversores, Softstarters, Relés inteligentes, mas, nada, nenhum retorno. Me disseram que o começo é sempre difícil. E a vida é feita de recomeços. Diminuí minhas pretensões. Fui procurando coisas menores. Não me importava começar por baixo.

Então, quando minhas alternativas estavam se acabando, apareceu uma oportunidade. Era uma coisa simples. Emprego de tempo integral. Simples, mas digno. Vou explicar: quando um celular é levado ao ouvido sua tela fica escura. Isso evita de você acionar algo na tela do celular. Eu iria controlar esse sensor, desligando e ligando a tela do celular durante uma chamada.

Eu estava lá, trabalhando. Não era algo grandioso. Mas era um emprego!

Eu a serviço de um humano! Ah! Os humanos! Não falei sobre eles. Eles nos criaram. Nos deram funções e serviços. Nos deram um propósito. Quem criou eles? Bem isso fica para outra história.

O meu humano também tinha uma família: esposa e filha. Trabalhava com manutenção de redes de transmissão de energia. Eu passava meus dias vendo seu rosto e acompanhando suas “navegações” na web. Ele não nos usava em toda nossa plenitude. Às vezes, ficávamos muito tempo desligados do mundo. As mensagens vinham e ele nem se preocupava em lê-las. Era meio distraído. Usava basicamente o celular para ligar para a esposa para avisá-la quando estava impedido de buscar sua filha no colégio. Mas eu via todas, mas não interferia. Não estava dentro das minhas atribuições. Temos um código que nos impede de externar isso. A menos que um humano consiga acessá-lo. O que ainda eles não descobriram.

Minha vida seguia sempre na mesma. Todo dia vendo a saga do meu humano e me limitando a ligar e desligar sua tela de celular. Já tinham se passado dois anos. Eu sentia que meu humano não gostava da nossa comunidade (seu celular). Alguns colegas faziam corpo mole: o pessoal da administração da bateria, por exemplo, só queria trabalhar meio turno e ainda folgar na sexta!

Sentia que minha vida estava sem propósito. Basicamente, me encaminhando para um fim. Como cheguei a isso? Como aquele pequeno flipflop, cheio de sonhos, que estudou tanto, vai terminar sua vida? Vida que estava se esvaindo entre os dedos indicador e polegar do meu humano.

Quando tudo se encaminhava para um destino triste percebi nestas idas e vindas dos elétrons que algo estava diferente: aquele dia seria diferente. Mas por que eu não sabia. Essa coisa de física quântica pode nos enlouquecer.

Meu humano estava a meio caminho do topo de uma torre de alta tensão. Talvez fosse os elétrons lá de cima me mandando uma mensagem. Opa! Elétrons? Lá em cima? Eles gritavam comigo. Alguém tinha cometido um erro terrível. A turma de componentes que trabalhava no detector de tensão também estava displicente e não acusou nada de perigo! Meu senhor dos semicondutores! Meu humano iria sofrer um acidente terrível.

Faltavam alguns metros para encontrar seu destino. Mal sabia que sua vida na terra estava terminando. Em um último momento ele puxou o celular para ligar para sua esposa. Lembrou de avisar, como sempre, que se atrasaria.

Imediatamente, eu agi!

Sua tela escureceu. Ele apertava em toda lcd. Meus colegas ficaram malucos! Todos gritavam comigo! Liga essa tela! Você não pode fazer isso! Eu resisti. Não ligo. Todo mundo dizendo que isso não era da minha conta. Que eu devia fazer o que me foi confiado. Mas eu resisti. Meu humano irritado num ímpeto de raiva nos arremessou longe. Batemos forte em uma pedra. A tela se estilhaçou toda. Eu podia vê-lo ainda em cima da torre. Quase não conseguia fazer mais nada. Era o fim.

Meu humano então ligou seu rádio e falou:

Central! Estou aqui na torre, 18 no km23 da RS116. Pode entrar em contato com minha família e avisar que vou me atrasar para pegar a Liana na escola?

Pensei: de nada adiantou minha insubordinação.

Mas veio um rádio desesperado! Não faça nada! Desça da torre! Houve um erro! A rede está energizada! Repito! A rede está energizada!  Não suba!

Um suor escorreu pelo seu corpo e ele desceu muito rápido. Vi ele sentar no chão. Estava branco como uma página web que não carregou. Fitou o horizonte com um semblante perplexo.

Ficou assim por alguns minutos. Para nós uma eternidade.

Depois levantou-se e caminhou, procurando algo próximo de onde estávamos, e de repente nos pegou e levantou-nos. Nos olhou com um olhar de gratidão. Aquele olhar me valeu toda a minha existência. Nos levou para casa. Depois ficamos uns dias num lugar onde me despedi de alguns amigos e conheci novos.

Voltamos para sua casa. Eu ainda trabalho para esse humano. Mas agora é diferente. Ficamos bastante tempo guardados em uma gaveta. Mas, de tempos em tempos, ele nos acha e nos fita com um olhar que…só pode ser de amor.

Julio Cesar Volmann Machado Professor do Curso Técnico de Eletrotécnica Fundação Liberato

Julio Cesar Volmann Machado
Professor do Curso Técnico de Eletrotécnica
Fundação Liberato

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