Sobre as voltas que a vida dá

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Faz um pouco mais de um ano que a minha vida deu uma volta de 180 graus. Para o norte! Isso aconteceu porque tomei a decisão de, finalmente, realizar um sonho de 30 anos, um sonho de adolescência: estudar no exterior. Foram quase quatro anos de preparação para poder me candidatar e ser aceita para cursar o doutorado na Universidade de Regina. Todo esse processo trouxe muitos aprendizados, e eu gostaria de dividir alguns com vocês.

Ainda no Brasil, uma das primeiras questões a serem resolvidas disse respeito ao aprendizado e ao uso do idioma inglês. Como a maioria dos estudantes brasileiros, eu estudei inglês como língua estrangeira moderna na escola, como componente da parte diversificada do currículo. Esse estudo, no entanto, não foi o suficiente para o que é requerido num teste do Toefl ou do Ielts, que são os mais comuns para admissão de alunos estrangeiros em universidades em países de língua inglesa. Então, ‘bora estudar inglês’, além de toda a rotina de 50 horas de trabalho semanais fora de casa. Outro ponto importante foram a parte financeira e a organização do orçamento para o suporte das despesas que viriam, feita com a ajuda da Rafaela Boeff. E mais, encontrar universidade e docente que iriam me acolher. E aplicar para a universidade e para o visto de estudante. Enfim, foram longas horas de estudo e preparação; afinal, a gente sonha, mas precisa trabalhar para pôr os sonhos em prática.

No Canadá, lugar onde eu realizaria meu sonho, estava outra parte do aprendizado. E é aqui que vou me demorar mais. De repente – não tão de repente assim, porque eu estava planejando vir -, eu estava num lugar onde eu era uma anônima. Eu dizia de vez em quando – quando as coisas ficavam mais difíceis – que tinha vontade de ir para um lugar onde ninguém me conhecesse. Alguém me disse uma vez para ter cuidado com o que desejasse, porque isso poderia acontecer. Aconteceu. Por mais que tivesse me preparado e feito planos, o impacto, não de chegar aqui, mas de aqui viver, foi forte.

Toda a experiência acumulada em mais de 25 anos de profissão, em várias turmas, escolas e níveis de educação diferentes, não contavam, porque além de meu irmão e família e uma outra família brasileira de amigos, ninguém sabia quem eu era. Depois de um tempo, eu também me questionava: quem eu sou? Para algumas pessoas, a comida é o que faz mais falta quando estão fora de casa, para outras pessoas, é o clima que impacta. Para mim, foi a questão da identidade. Nem o ensino na universidade foi difícil, porque tive uma ótima formação no Brasil, tendo estudado todo o ensino fundamental e grande parte da pós-graduação em instituições públicas. A questão da identidade, no entanto, foi a que mais impactou. E essa questão passa pela linguagem, pela cultura, por pontos bem íntimos, que eu não percebia quando estava no meu país de origem.

O processo não impactou no sentido de ser doloroso, mas no sentido de pensar a partir do ponto de vista de uma imigrante. Eu sou descendente de imigrantes, como acredito que o povo brasileiro em geral o é. Então, uma das coisas em que pensava era em como deve ter sido bem difícil para os meus antepassados se adaptarem a uma nova cultura, sem conhecer o idioma. Eu havia estudado e aprendido sobre a questão da imigração no trabalho de conclusão de curso de uma das especializações que fiz. Eu havia lido sobre a história de imigrantes, como as que a Zelia Gattai conta. Eu residia no Berço da Imigração Alemã no Brasil; entretanto, viver o cotidiano da imigração é diferente. Descobri-me uma imigrante transnacional, um termo bem bonito para se referir a quem é imigrante em um país, mas mantém laços com o seu país de origem, como é o meu caso. É, admito, foi um pouco doloroso.

Houve outros aprendizados que tive de pôr em prática, relacionados ao mundo do trabalho. Um deles foi o de fazer curriculum vitae, carta de apresentação e preparação para entrevistas de emprego, que passei cerca de sete anos ensinando na Liberato. Lembro-me de que disse, em algumas turmas – talvez em todas –, que, atualmente, a questão do trabalho é diferente do que foi um dia, quando as pessoas entravam no primeiro emprego e nele permaneciam até a aposentadoria. Hoje em dia, eu dizia, a gente pode ter uma carreira dos 20 aos 40, outra a partir dos 40, e ainda, talvez aos sessenta, iniciar outra.  É possível diminuir ainda mais o tempo de permanência em cada idade, o ponto aqui não é esse. É, sim, a mudança, o não ficar parado em um ponto, se ele não serve mais, o não estagnar, o pensar que a gente pode realizar os sonhos, mesmo que demore um pouco mais, como no meu caso. É ter a coragem para escolher e, principalmente, tomar a decisão de fazer.

Um terceiro aprendizado é que a gente tem de sair da zona de conforto. Não que eu não tivesse já feito isso, ao longo da minha trajetória profissional, mas é que aqui eu praticamente fui chutada para fora dela. Eu estou no ponto em que viver fora da minha zona de conforto é a minha atual zona de conforto. São novos amigos a fazer, novas oportunidades de trabalho em escolas e na universidade que passei a ter, encontros via Zoom, tanto para aulas como para participar de grupos de fala em inglês de que passei a participar com grupos de não nativos no idioma. Vir para o Canadá abriu possibilidades de conhecer pessoas incríveis e com elas trabalhar. Como é a oportunidade de trabalhar com uma colega de Speaking Club, com quem coordeno um grupo de conversa, que é do Vietnã, mas mora nos Estados Unidos, ou de ser teaching assistant na universidade. Oportunidades que a pandemia trouxe, mas isso é assunto para outro texto. O que é desse texto, nessa parte, é que o trabalho em parceira com a professora Vivian Guazelli, por sugestão de André Lawisch, então coordenador do Curso Técnico de Informática para Internet, me ensinou muito do que eu agora estou vivendo nesta atividade.

Um aspecto de que gosto, na minha trajetória profissional, é de que sempre procurei aliar a teoria e o discurso à prática. E aqui, nessa nova vida, estou mais uma vez fazendo isso. E muito do aprendizado que venho aplicando aqui foi possível porque certa vez eu entrei na Fundação Liberato como professora, como eu escrevi em um texto em 2013. Foi todo um mundo de oportunidades que se abriu para mim e de aprendizado com muitos colegas, o que também trouxe muito estudo e aprendizado, nos mais variados momentos com as colegas de Língua Portuguesa, nas reuniões dos cursos, e muito em sala de aula. E muito trabalho! Quem é da Liberato sabe bem disso. Então, esse texto foi para falar um pouco sobre a vida aqui no Canadá e falar muito sobre o quanto ter tido a oportunidade de trabalhar na Liberato me ajudou na preparação para a realização do sonho e na vida por aqui. Acredito que esse aprendizado vai me auxiliar a completar as outras voltas que a vida me apresentar.

Lucrécia Raquel Fuhrmann Professora de Língua Portuguesa e Literatura Fundação Liberato

Lucrécia Raquel Fuhrmann
Professora de Língua Portuguesa e Literatura
Fundação Liberato

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